segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Análise do texto “ A Pobreza e a Exclusão Social: Teorias, Conceitos e Políticas Sociais em Portugal”


Tal como prometido, aqui vai a análise do texto que referi no ultimo post. Peço desculpa pelo tempo e pela análise simplista que fiz, contudo e neste momento, não achei necessidade de aprofundar este tema tão extenso, tão profundo e tão teórico, contudo, claro que no projecto aprofundarei mais o tema. Em baixo, apresento a análise e no fim uma pequena reflexão e enquadramento pessoal do tema com o meu projecto.

            A utilização do conceito de exclusão social  é relativamente recente, contudo à medida que o uso do mesmo se generaliza, muitas vezes este torna-se confuso e equívoco nos seus significados. Assim, e segundo os autores, é necessário construir uma definição mais completa e operacionável.
            A exclusão social surge com a agudização das desigualdades, como referem os autores. Isto significa que, sendo a desigualdade um principio inerente a qualquer estrutura social, será de esperar diferentes capacidades de acumulação e de articulação dos recursos pelos actores de uma dada sociedade. Com a acentuação dessas desigualdades já existentes, surge a exclusão. Esta ocorre quando existe uma desarticulação entre os actores que possuem recursos e por isso os mobilizam no sentido de uma participação social, e aqueles que por não os possuirem se tornam incapacitados de o fazer e assim, de participarem na vida social da sua comunidade ou ate mesmo da sociedade onde se inserem.
            Podemos então dizer que, exclusão opõe-se a integração social, sendo assim igual à “não participação” dos individuos na sociedade.
            No fundo, a exclusão configura-se:
- Como um fenómeno multidimensional (um ou vário fenómenos sociais (desemprego, discriminação, pobreza,...) que interligados contribuem para produzir o “excluído”);
-  tem um carácter cumulativo, dinâmico e persistente;
- Contém no seu núcleo processos de reprodução (através da transmissão geracional) e de evolução (como o surgimento de novas formas).
No fundo, o excluído encontra-se numa situação de espiral, pois, estando fora do universo material e simbólico da sua comunidade ou sociedade este sofre a acção crescente da rejeição, que por sua vez, culminará, se nada for feito para inverter a situação, na incorporação de um sentimento de auto-exclusão.
Em termos sociológicos, a exclusão social enquanto conceito com relevância teórica neste campo, substituiu o conceito de pobreza nos debates nos finais dos anos 80, querendo acentuar aspectos mais complexos do que o das condições somente económicas da vida em sociedade. Aliás, já sociólogos do século XIX, como Durkheim e Simmel haviam-se debruçado sobre temas da exclusão social.
Assim, e citando Lamarque (1995), citado pelos autores, a exclusão é produto de um défice de coesão social global, não se reduzindo a fenómenos individuais nem a simples agregações de situações.
Uma das importantes dimensões da exclusão é a dimensão simbólica. Importa tê-la em conta no estudo deste fenómeno pois, esta é no fundo, a transformação ou até mesmo construção da identidade ou “nova” identidade do individuo excluido (rejeitado de um certo universo simbolico de trocas e transacções sociais devido a inumeros factores), identidade esta que será inevitavelmente composta por um sentimento de inutilidade. Ligado à sua própria incapacidade de superar desafios e obstáculos da vida e ainda os processos que acentuam a exclusão. Esta dimensão parece-me importante visto ser a partir da exclusão e dos processo de exclusão que esta se forma mas que se formando ou transformando, irá ter repercussões na própria comunidade e sociedade em que o individuo se insere.

Outro ponto relevante do texto é a relação entre o conceito de exclusão social e o de pobreza.
No texto, os autores referem que, nas sociedades modernas ocidentais a pobreza e a exclusão social se reforçam mutuamente. Após, a leitura do texto o que posso concluir acerca desta relação e de forma muito sintética, é que a exclusão gera pobreza, estando assim os dois conceitos em intima relação. Imaginemos um circulo grande com outro circulo mais pequeno no seu interior, a exclusão seria o circulo grande e a pobreza o circulo pequeno no seu interior, no fundo é a ideia de que a exclusão abarca a pobreza. Fenómenos de exclusão levaram, se nada for feito para alterar a situação, a situações de pobreza. Assim, a pobreza é uma das dimensões, e talvez a mais variavel, do conceito de exclusão social.
Contudo, e apesar da relação que estes dois conceitos possuem, existem diferenças conceptuais entre eles. Segundo Pereirinha (1992) cit. Em E.V.Rodrigues et all, “o conceito de pobreza analisado enquanto situação de escassez de recursos de que um individuo ou familia, dispõem para satisfazer necessidades consideradas mínimas, acentua o aspecto distributivo do fenómeno (...). Já o conceito de exclusão social acentua os aspectos relacionais do fenómeno, quando encaramos este conceito enquanto situação de inadequada integração social”. Penso que a distinção apresentada nesta citação, demonstram bem a diferença conceptual entre os conceitos e a necessidade de os estudar em complemento um com o outro.
É importante também referir que, o conceito de pobreza sofreu um processo de evolução, contribuindo para uma desmultiplicação do conceito em várias dimensões que procuram enquadrar novas realidades associadas à pobreza. Assim, surgiram dicotomias, tais como pobreza absoluta/relativa, pobreza rural/urbana,etc. Não irei entrar por este tema de forma a não me perder, contudo esta desmultiplicação tem de ser tida em conta, na minha opinião, quando se estudam estes fenómenos de forma a que, o estudo se torne o mais abrangente e completo possivel.
O texto aborda ainda abordagens teóricas sobre a pobreza, tais como a culturalista e a sócio-económica, deixo aqui o meu apelo a quem quiser e tiver interesse nestes temas para que leia este texto pois pareceu-me abarcar de forma completa muitos dos assuntos relacionados com estes conceitos.

Prosseguindo na análise, o artigo continua focando-se nos tipos de exclusão social, nas categorias sociais vulneraveis a exclusão e nas mais desfavorecidas, caracterizando-as e enquadrando-as nas formas tradicionais e depois com dimensões como o emprego. De seguida, os autores fazem uma breve distinção de trabalho, emprego e desemprego, enquadrando-os com a precariedade e com a inserção dos individuos na sociedade. Afirmam também a importância dada pelas politicas sociais ao fenómeno do combate ao desemprego (sendo este fonte de desigualdade e por sua vez, de exclusão).

            Os dois últimos conceitos que me parecem importantes de referir e que o artigo declara são: integração e inserção social.
            Como já referi, o conceito de exclusão social está, por oposição, relacionado com o de integração social. Assim, justifica-se numa lógica do problematização do conceito de exclusão social, colocar a par o conceito de integração social.
            Como referem os autores a integração designa-se como “o processo que caracteriza a passagem das pessoas, famílias ou grupos das situações de exclusão para as de participação social e cidadania.” (CIES/CESO I&D, 1998:9).
         A condição básica para se operar a integração é que esta deve pressupor, e ctio os autores, delegação de poder e os excluidos os grupos empobrecidos devem ter necessariamente uma participação activa no funcionamento de grupos sociais organizados.
            A integração passa ainda por 4 sistemas que devem interagir entre si:
                - o sistema político-jurídico (deve operar a integração cívica e política)
                - o sistema económico e territorial (pressupõe a integração sócio-económica num dado espaço)
                - o sistema de protecção social (proporciona a integração social)
                - o sistema familiar, comunitário e simbólico (devem realizar a integração familiar e na comunidade mais abrangente).
            Como referem os autores, numa sociedade de lógica produtivista, a integração apoia-se na actividade profissional, e por sua vez, as políticas de combate à pobreza e exclusão social assentam na noção de integração social, formando-se uma espécie de ciclo. A outra ponta deste ciclo pode dizer-se que é a inserção social. Para facilitar a percepção teórica de todos estes fenómenos, podemos dizer que a integração visa promover a inserção social.
            Vale a pena, na minha opinião, atender à definição que os autores colocam no artigo para este conceito, assim inserção social será “duplo movimento que leva, por um lado, as pessoas, familias e grupos em situação de exclusão social e de pobreza a iniciar processos que lhes permitam o acesso aos direitos de cidadania e de participação social e, por outro lado, as instituições a oferecerem a essas pessoas, familias e grupos reais oportunidades de iniciar esses processos, disponibilizando-lhes os meios, dando-lhes apoio” (CIES/CESO I&D, 1998:9;Capucha,1998).
            Este conceito relaciona-se também com as politicas sociais como vimos anteriormente e com o conceito de protecção social que se entende como um sistema que tem como objectivo diminuir os efeitos mais graves das desigualdades sociais. Para isso previligia a concretização de acções de apoio e inserção assentes em politicas sociais que restituam as capacidades e direitos das pessoas em situação de pobreza ou exclusão, para o exercicio da cidadania.

            Por fim, o texto apresenta uma síntese evolutiva das tendências de sentido da legislação das grandes áreas de intervenção: saúde, habitação, família e justiça. Nesta análise não irei aprofundar este ponto, contudo vale a pena e em jeito de conclusão, aquilo que os autores também referem relativamente, às politicas de protecção social e à sua execução, e que é o deslocamento do papel tutelar do Estado com o progressivo envolvimento de entidades radicadas na sociedade civil, tornando-se parceiros na prossecução dessas políticas. Na minha opinião, e visto a crise que vivemos parece-me ser este o futuro e ser este o caminho que devemos seguir de formar a melhorar e assegurar a vida de tantas pessoas e famílias em situações de pobreza ou de exclusão.

            Para terminar, gostaria de referir que todos estes temas estão muito relacionados com o meu projecto pois o objectivo final do mesmo será diminuir a exclusão social promovendo a inserção social dos individos e a sua integração na sociedade de forma a, e em termos globais, diminuir as desigualdades sociais, com a execução de politicas de protecção social adequadas e com a participação envolvente da sociedade civil (atraves de voluntarios e de pessoas interessadas em ajudar quem mais precisa). Na minha opinião, só com a envolvênvia destes actores sociais e é claro do nosso público-alvo (pessoas em situação de exclusão ou pobreza) é possível operar mudança e tornar as assimetrias cada vez menores na sociedade em que vivemos e no mundo globalizado em que nos inserimos.

Margarida Piçarra Navalhinhas

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